terça-feira, 25 de março de 2014

Esperando.

Acordo, me penteio, maqueio os olhos, prendo o cabelo. Eu não estou pronta. Eu não estou pronta. Repito mais alto. Será que ela me ouve? Talvez depois de outros sapatos, mais um abraço, uma última conversa, por favor, me deixe ter uma última conversa. Corro para cozinha, talvez eu tenha tempo de comer alguma coisa. A gente sente fome? Sente fome quando...bem...você sabe...será que a gente sente fome depois que ela vem? Acredito que não. Abandono o pão mordido em cima da mesa, talvez eu troque de roupa, sim, talvez seja isso. No espelho...ainda não estou pronta. Penso em vocês, na voz rasgada e boba, em todos os conselhos tolos. As vezes sinto que sou a única a ter medo dela. As pessoas não falam sobre ela, ainda mais com alguém como eu, jovem, saudável, vocês costumam se revoltar quando ela visita alguém como eu. Nunca entendi a revolta, ela visita quem ela bem entender...eu não estou pronta sabe, todos os dias eu ando com pressa na rua pensando que ainda não estou pronta, converso sobre banalidades porque não estou pronta, aperto forte a mão dele enquanto dormimos, é tão óbvio, eu não estou pronta, leio todos esses livros porque não estou pronta, bebo porque...não sei porque, também não me sinto pronta. Outro dia eu encostei a cabeça no travesseiro e fui tomada pelo pânico de que não estou pronta. Mas a noite silenciosa não me respondeu.

Escovo os dentes, ainda sem estar pronta. Espero que de tempo.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Sobre o ano sem fim

Agora que restam poucas semanas pro fim desse ano, eu não consigo deixar de pensar no quão difíceis e, de alguma forma, especiais, foram os últimos meses. Acho que talvez isso faça parte do sentimento de renovação e termino que o mes de Dezembro carrega. Eu não sei. 
Cerca de seis ou quatro meses atrás eu me encontrava completamente perdida dentro de um sentimento de desespero e vazio. Não sou capaz de explicar a depressão, ou qualquer outra doença que encontre uma morada no meu peito.

A questão é que eu não era eu mesma. Eu tinha me tornado essa cópia cinzenta de quem eu costumava ser, e eu nunca experimentei nada pior do que esse sentimento de “não ser”. Eu não era, e a pior parte é que eu não sabia o que eu queria ser. Não me refiro a emprego ou formações universitárias (apesar da falta de decisão sobre o que fazer com a vida também ter me afetado) eu queria dizer sobre não ser, não ser nada perto de humano, ser um corpo de carne e osso que anda por aí falando e sentindo coisas que parecem não pertencer a si. Se perder é uma falta de sentimento imensa.
Aos poucos, sem eu nem me dar conta, as coisas começaram a fazer sentido outra vez. Não digo isso me referindo a um processo de iluminação e entendimento do que me cerca, eu ainda não entendo tanto assim; Mas algo surgia, aos poucos eu percebia essa coisa, vamos chama-la assim, de coisa, aos poucos essa coisa se criava, se expandia e me contaminava. Ela era tão forte e tão dolorida, essa coisa que começou a tomar conta do meu sangue, ela era impiedosa comigo, me obrigou a lembrar de coisas que eu não queria lembrar, me obrigou a encarar quem era aquela refletida no espelho e…aceitar.
E aceitar é tão complexo. Aceitar de coração aberto e leve todas as coisas que te aconteceram e todas as coisas que você fez, isso é tão libertador e amedrontador ao mesmo tempo. É como vomitar depois de beber demais, sabe? Você se coloca naquela situação, ninguém te obrigou a encher a cara, e você se sente mal e doente, ao mesmo tempo que jogar seus líquidos estomacais pra fora é extremamente agoniante, é o único jeito de cortar o efeito que aquelas doses te causaram. Aceitar o que a vida me deu foi assim. Foi como vomitar depois de querer beber pra esquecer.
Limpado os fluídos pelo chão, o processo dolorido que é aceitar as coisas ruins e não se amargurar por elas, se transformou nesse amor. Esse amor pequeno que eu ainda não sei bem como criar, esse amor que faz com que eu me sinta bonita, que toma conta do meu corpo magro, ele é tão barulhento. Eu sinto esse amor crescer e tomar forma, e abraçar-me, porque esse amor novo, eu só sinto em mim e por mim, e ele me toma pelos braços e me convence, ainda que com a voz muito baixa, de que eu sou alguém, que sou real e que existe esse amor que eu sinto só por mim, que quer me proteger e vem de dentro e não de fora, não vem do outro. Eu só quero que esse amor dure, que essa relação se estenda pelos próximos anos, ainda que eu saiba que as relações longas tendam a ter seus altos e baixos, algo me diz que essa vai ser boa.


PS: a foto de gatinhos não tem realmente nenhum sentido além de que eu gosto muito de gatinhos. amem gatinhos.

sábado, 12 de outubro de 2013

lembrete

Bem, afinal, foi o que? Um ano e meio correndo meio inadequado, se achando a criatura mais incompreendida do planeta. Um ano e meio chorando no chão do banheiro, com raiva, tristeza e principalmente com medo, muito medo. Perdido, sem controle da vida, sem controle do corpo e principalmente com idéias distorcidas de felicidade e perfeição. Um ano e meio se arrastando entre noites mal dormidas, dias intermináveis, ah, e saudades, muitas saudades. Um ano e meio que resultou num episodio em particular que lhe causava vergonha, por ter sido tão triste a ponto de tentar abandonar o jogo no meio. 
Depois, seis meses restantes de um pouco de amor próprio, novos amigos, diversão e verdade. Tudo isso pra perceber que quando tudo estiver ruim, é só esperar, pois tudo, absolutamente tudo, passa. Anda bem agora.


Escrevi isso com 15 anos, fazia alguns meses que eu tinha saído da minha primeira crise depressiva, as coisas eram claras e coerentes de novo, tinha passado. 

Mantive por anos um medo incontrolável da tristeza, da perda. Essa época sempre foi uma sombra, uma espécie de lembrete que servia pra dizer que tristeza demais era insuportável.
Alguns meses atrás eu tive outro surto depressivo. É confuso e pesado, eu não consigo me lembrar com clareza de como eu me senti no começo, da mesma forma que também não lembro da minha primeira crise com detalhes. Não tive crises intermináveis de choro mas senti uma dificuldade enorme de abrir os olhos, dormir era tão confortável e vazio que se tornou tudo que eu fazia.
Tudo isso parece visto de fora, vivido por outrem que me conta em detalhes a experiência da perda de sanidade. São 3:47 da manhã, hoje é domingo, 13 de outubro de 2013, e eu me sinto bem, quase feliz. 

Não sou mais tão ingenua a ponto de acreditar que vou conseguir correr da tristeza, eu sei que isso também passa, essa sensação de plenitude que me invade é tão efêmera quanto minhas crises. Não me aterroriza pensar que essa plenitude vai acabar. Tudo tem começo, meio e fim, e estou certa que essa depressão também terá. 

domingo, 9 de junho de 2013

Caleidoscópio

Encontrei um caleidoscópio em uma feira a alguns meses atrás, ele era de metal e eu não lembro exatamente quanto custava. 

O Caleidoscópio (ou Calidoscópio) significa:
grego kállos, beleza + eîdos, o que é visto, forma + -scópio
  1. Aparelho de física, para obter imagens em espelhos inclinados, e que a cada momento apresenta combinações variadas.
  2. Conjunto de coisas que se sucedem, mudando
Eu não sei sobre física, ou como as imagens são refletidas em espelhos e qual o papel disso tudo no processo de criação de uma figura que cause sentimentos de beleza e transformação. 
Mas eu tento entender como as coisas seguem se alterando, como a cada dia que passa tudo é um pouco menos daquilo que era antes. É assustadora a mudança que todos os dias irrelevantes trazem consigo, talvez eu precise de um caleidoscópio pra enxergar beleza nisso tudo.

Eu sempre achei que era só questão de querer ver.