terça-feira, 25 de março de 2014

Esperando.

Acordo, me penteio, maqueio os olhos, prendo o cabelo. Eu não estou pronta. Eu não estou pronta. Repito mais alto. Será que ela me ouve? Talvez depois de outros sapatos, mais um abraço, uma última conversa, por favor, me deixe ter uma última conversa. Corro para cozinha, talvez eu tenha tempo de comer alguma coisa. A gente sente fome? Sente fome quando...bem...você sabe...será que a gente sente fome depois que ela vem? Acredito que não. Abandono o pão mordido em cima da mesa, talvez eu troque de roupa, sim, talvez seja isso. No espelho...ainda não estou pronta. Penso em vocês, na voz rasgada e boba, em todos os conselhos tolos. As vezes sinto que sou a única a ter medo dela. As pessoas não falam sobre ela, ainda mais com alguém como eu, jovem, saudável, vocês costumam se revoltar quando ela visita alguém como eu. Nunca entendi a revolta, ela visita quem ela bem entender...eu não estou pronta sabe, todos os dias eu ando com pressa na rua pensando que ainda não estou pronta, converso sobre banalidades porque não estou pronta, aperto forte a mão dele enquanto dormimos, é tão óbvio, eu não estou pronta, leio todos esses livros porque não estou pronta, bebo porque...não sei porque, também não me sinto pronta. Outro dia eu encostei a cabeça no travesseiro e fui tomada pelo pânico de que não estou pronta. Mas a noite silenciosa não me respondeu.

Escovo os dentes, ainda sem estar pronta. Espero que de tempo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário